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Title: Do libertário ao conservador: transição de Obama para Trump coloca Estados Unidos em nova era
Author: Diário de Riachão
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Eugenio Goussinsky, do R7 Obama deixa o cargo com alta popularidade mas muito de sua política deverá ser modificado no governo de Tr...
Eugenio Goussinsky, do R7

Obama deixa o cargo com alta popularidade mas muito de sua política deverá ser modificado no governo de TrumpReuters

A essência dos Estados Unidos é a sua ampla variação: planícies e montanhas, praias e desertos, negros, brancos, judeus, hispânicos, asiáticos, entre outros, preenchem seu vasto território em meio a conflitos, suor e sonhos. Neste emaranhado vital, a imponência da Casa Branca, e sua bandeira erguida sobre a fachada, balançando com o tempo e o vento, acabou se tornando também um símbolo de sabedoria.

A residência oficial, testemunha da história, é a melhor prova de que o país vive de um dia após o outro, de era em era. É ela, representando a sociedade americana, que permanece, em meio a tantas alternâncias. E depois de oito anos do negro e libertário Barack Hussein Obama, 55 anos, do Havaí, vem o bilionário de ar elitista, Donald John Trump, 70 anos, de Nova York, eleito em novembro último, com maioria no Colégio Eleitoral. Segundo a historiadora Barbara Weinstein, doutora pela New York University, o país certamente entra em uma nova etapa a partir desta sexta-feira (20), com a posse do novo presidente.

— A cultura política vai mudar muito no país, só olhando para o gabinente de Trump já se percebe. As pessoas nomeadas apontam para um mudança total. Está sendo formado um gabinete quase que totalmente de homens brancos, uma grande parte dele de homens ricos, bilionários, e outra de militares. Ele terá a maioria no Congresso e ainda na Suprema Corte (para a qual, logo após assumir, Trump já deverá nomear um juiz conservador e pelo menos mais quatro durante o mandato). Tudo isso já dá um tom muito diferente, independentemente de qualquer política específica.

A construção da Casa Branca em Washington, desde 1792, remete à do próprio país, erguido entre virtudes e defeitos, sobre escombros de terremotos e a beleza de suas baías ensolaradas. Barbara Weinstein sabe que, para muitos, Obama simbolizou uma maravilha como o pôr do sol no Grand Canyon. Mas para uma parcela significativa, contrária a qualquer passo adiante, foi como um anoitecer gelado na periferia violenta de Chicago.

— Trump vai tentar combater uma série de ganhos da gestão Obama e os republicanos já deixaram claro que querem fazer isso. Acabar com o Obamacare (programa que dá acesso a plano de saúde a milhões de pessoas), com o direito ao aborto, reduzir os direitos das mulheres. Também acordos internacionais, como o definido com o Irã, correm risco de serem desfeitos. Há uma série de coisas que deverão enveredar a política para outro lado. É difícil dizer que o Obamacare não foi uma conquista, mas politicamente enfraqueceu o Partido Democrata, foi um erro político e uma conquista do bem-estar. É um programa muito complicado, há pessoas que acabam perdendo alguma coisa por causa dele, isso abriu espaço para os republicanos o criticarem.

A contradição é uma marca do país, formado de uma organização, até certo ponto, encaixada nessas mesmas contradições. A democracia americana tem se mostrado aberta a mudanças, como a desta transição entre Obama e Trump. Não é a primeira vez que um governo popular, o símbolo de uma era, é substituído de forma até surpreendente, sendo, no entanto, aclamado pela maior parte do povo em seu adeus.

Isso aconteceu após o mandato do democrata Franklin Delano Roosevelt (1933 - 1945), comandante de um período vitorioso, ao elevar o país ao grau de grande potência após a Segunda Guerra. Seu governo (encerrado com Harry Truman), porém, foi substituído pelo do general Dwight David Eisenhower (1951 - 1963), um republicano que, de certa maneira, também pode ser considerado um outsider da política e iniciou uma era conservadora e intervencionista. Mas, surpreendentemente, com apoio aos direitos civis. 


Instituições fortalecidas

O cientista político Márcio Coimbra, coordenador do curso de Relações Institucionais do Ibmec, em Brasília, também acredita em alterações radicais na atual condução política.

— A primeira coisa que vamos ver no dia a dia é a mudança no sistema de saúde. Ele não deverá acabar com o Obamacare, mas sim modificá-lo. Também haverá uma readequação na questão de empregos, maior proteção que Trump vai dar para os trabalhos de americanos, cortando incentivos para empregos gerados fora. Vai haver um aumento do número de empregos até efêmero em um primeiro momento, mas vai acontecer. As questões internas serão as primeiras a serem sentidas. As externas vêm mais a longo prazo.

As estruturas vigorosas do país, com uma constituição coesa e duradoura e instituições fortalecidas, sempre foram suporte para as fortes mudanças de vento da política. Barbara considera que a mais temerária delas será o convite ao retrocesso racista que se apresenta junto com o novo presidente. Em sua concepção, as dificuldades do governo de Obama, que se depararam com diversas manifestações das comunidades negras contra a injustiça social, podem se transformar em um furacão com Trump.

— Trump abriu a possibilidade de as pessoas manifestarem o racismo mais ostensivo. Não é que o racismo tenha ido embora no mandato de Obama, muito pelo contrário, mas havia uma expectativa de um discurso de combate a esse mal. Isso agora vai embora, mesmo porque o próprio Trump de certa maneira dá o sinal verde para as pessoas manifestarem o ódio racial. As questões de relações raciais continuam um problema profundo nos Estados Unidos e acho que nos próximos anos isso vai piorar.

O lado intempestivo de Trump também é temerário, segundo ela. O ego do novo presidente, de acordo com Barbara, pode fazê-lo pensar que dirigir o país é como comandar uma de suas empresas. São, porém, impérios de proporções diferentes. "Um país não pode falir sete vezes", diz a professora, com ironia.

Obama, ao chegar ao poder, obteve um feito incrível, antes impensável. Foi o primeiro negro a ser presidente dos Estados Unidos. Agora, diante de tantas incógnitas, o surpreendente Trump poderia até redesenhar uma nova nação. E alcançar as profundezas da alma americana para responder por que a Casa Branca é assim chamada, e não é de Casa Negra. Pelas palavras de Barbara, mais fácil seria Trump sugerir um nome masculino para a casa. Mas se as feridas serão abertas ou cicatrizadas, só a história dos ventos americanos dirá.
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